quarta-feira, 14 de maio de 2014

Mês de maio

Maio sempre foi o meu mês favorito do ano. É quando o outono está a pleno vapor: a temperatura já se mostra bem amena, as folhas caem cada vez mais depressa, o sol aparece bem ativo mas ao longo do dia vai ficando preguiçoso e depois surge a lua (alguém já reparou que as luas em maio sempre são bem vivas ?) gritando sua beleza numa noite agradavelmente fria. Para mim é quando o ano está alegre, sem pressa de começar ou de acabar, sem desespero por feriados, sem chuvas torrenciais e ainda dá pra pegar uma praia e depois tomar um vinho e tomar caldo para enfim dormir com muito aconchego.

Minha irmã chinesa/índia/preta (porque ela realmente é tudo isso junto e misturado) é uma taurina de maio e ela sempre, sempre repete o discurso de todos os taurinos de que eles são os mais fodas de todo o zodíaco. Se for de maio, melhor ainda. Aliás, que as pessoas do bem são de maio. Não gosto de admitir, mas quem nasce nesse mês tão delicado deve ter alguma energia especial mesmo. Quem a conhece sabe que o que mais propaga dentro dela é vida,  com explosões de amor constante e é praticamente impossível nao amá-la. Assim como esse mês que ela nasceu.

Morando longe da maioria que amo, eu estava precisando das conexões que me trazem paz.  Resgatei vários desses laços agora em maio. O que eles não sabem é que eu estava me sentindo solitária até nessas relações de alma. Eu me senti perdidamente esquecida em março e resolvi tentar me esquecer também. Em abril voltei a lembrar e procurei encontrar quem eu sou  dentro de mim e com breves encontros com pessoas queridas. E agora, o mês começou com a surpresa de uma nova vidinha linda no ventre de uma grande amiga, com muita espiritualidade, com calma e  Moska e Lenine e John Mayer e Eddie Vedder  em meu Ipod. E já estou carregada de amor depois de uma semana de passeio na minha cidade de coração.

Para mim é impossível viver bem sem ter essas conexões. A internet não basta: preciso de toques e abraços e de ouvir as risadas e os choros. Preciso poder me sentir a vontade, pra trocar palavras e letras e  ideias, pra brindar os diamantes que estão por vir, pra poder ser desorganizada de forma engraçada, pra brincar com gatos e cachorros e bebês e querer um dia ter filhos,  pra traçar novas viagens e mudar de profissão, pra começar novos blogs e ir dançar sorrindo, pra deixar o vento embolar todo o cabelo, pra pensar o futuro onde moraremos todos perto, sei lá em que cidade, em que ano, mas onde toda uma família não de sangue, mas de laços, irá dividir o mesmo quintal.

Maio, mês que sempre recarrega minhas baterias. Não tem como não amar. Assim como meus pedacinhos que nasceram nesse mês.



sexta-feira, 7 de março de 2014

Semana de carnaval

Fiquei a semana toda desconectada para não me achar a única pessoa fora do carnaval no mundo. Não adiantou muito. O carnaval é uma festa tão intensa que mesmo que você não abra as portas para ele, ele invade sua janela aos berros. Certo que não vi fotos dos amigos e nem liguei a tv. Mas quando eu ia dormir, só escutava as músicas e as risadas num outro mundo e tudo isso só serviu para aumentar a minha solidão.
Eu escolhi ficar longe do Carnaval – o que aliás tem se tornado comum, e eu era rata dos blocos e dos becos do samba, do maracatu e das marchinhas – com um propósito. E estava bem tranquila, como no ano passado e no anterior, quando fiquei com minha vó e depois tanto barulho perdeu seu sentido, com a decadência da festa que eu conheci anos atrás. Mas dias antes do feriado, o meu vazio se intensificou de uma forma tão grotesca e ficar sem as notícias carnavalescas no final apenas intensificou meu sentimento de desconexão com o mundo. Foi tão de repente – eu estava segura e tranquila, e aí de repente senti que perdi todos os laços da minha vida e no final tive essa certeza – bem no meio da festa, e eu sentia como se um bloco inteiro passasse em cima de mim sem que eu conseguisse respirar.
Engraçado como essas coisas acontecem sem aviso. Não estava preparada para enfrentar esse vazio porque ele não deu sinal como geralmente acontece, uma melancolia que surge e vai progredindo. Simplesmente apareceu. E trouxe com ele todas as escolhas que fiz na vida – e todas aparentemente erradas. O vazio só apontava o dedo e gargalhava da minha ignorância, da minha inocência e tudo perdeu seu propósito. Tudo. E aí eu me tranquei e chorei por um tempo impossível de ser contado, até que pedi uma trégua porque eu tinha virado um nada. A trégua durou minutos mas acabou e tudo voltou de novo e só foi embora depois que gritei, eu e minha mãe gritamos, porque eu estava quase morrendo em mim. Depois amanheci.
Quase todo mundo que conheço hoje faz terapia e todos me falam que processos de autoconhecimentos são dolorosos e podem ser fatais, mas sobreviva a eles porque são necessários. Esse não teve nenhuma orientação, e nenhum acompanhamento. Talvez por isso tenha sido tão bruto. Dizem também que depois do Carnaval os Espíritos que foram soltos retornam pras suas casas e é uma época muito delicada porque eles podem querer brincar com você antes de partir. Acho que quiseram me ferir mesmo e foram embora satisfeitos porque me massacraram.
 Mas, ironicamente, quando amanheci, a primeira memória que veio foi do olhar de um esquecido. Eu não lembrava mais dele, parece que foi em outra vida. Eu odiava a faculdade de Direito e pensava em com largá-la, no quarto período, quando visitei pela primeira vez uma prisão. Eu me deparei com  esse preso com um olhar duro. Fizemos algumas perguntas mas ao contrário da maioria, ele não queria falar, não parecia querer sair dali. Como não queria sair? Só nos olhava em silêncio, até que focou em mim. Eu tremi, mas não de medo; tremi porque por segundos eu também me senti um nada. Foi quando comecei meu discurso com viés criminológico e abandonei tantos ideais burgueses, passei a parar de ocultar problemas, foi quando passei a ter um olhar crítico da realidade. Eu saí daquele lugar tão transtornada que decidi pelo caminho mais difícil – e decidi que a única maneira de realmente merecer o mundo seria fazendo o possível pelos abandonados do sistema. Existem outros caminhos menos pesados, mas na época parecia que apenas esse era eficaz. Um erro talvez, e se foi é mais um pra minha coleção. Mas foi uma escolha sincera.
Na vida que acabei construindo, nunca desenvolvi nenhum talento real. Nunca fui a inteligente, a esperta, a criativa, a bonita, a iluminada. Sempre lutei contra a dislexia, contra piadinhas aparentemente inocentes, xingamentos e cheguei por um tempo a construir uma barreira onde fingia que tudo era exagero porque era mais fácil esconder. Hoje quebrei muitas pedras, mas continuo sendo a típica pessoa mediana. Só tenho de especial o que todos nós temos, um amor, que é gigantesco, que é louco pelo mundo, pelos presentes da vida, e ele vai ter que ser o suficiente para que acreditem em mim porque não tenho nada além. Acho que justamente porque nunca me destaquei, sempre acreditei que não é preciso nenhum plus para ser feliz. Mas é fundamental ter alguém que acredite e que te ajuda a não ser engolido por um sistema que só privilegia os talentosos. E isso é o que eu tenho pra oferecer pro mundo e no final compensa muito, mesmo sem aplausos ou gritos de uma multidão. É quando me torno de verdade a pessoa mais feliz do mundo.
Talvez por tudo isso, depois que lembrei do que tinha esquecido, eu comecei a rir. Gargalhar na verdade, loucamente, ainda deitada na cama, no chão. Levantei, olhei para o sol e agradeci pelo meu carnaval. Engraçado como às vezes é necessário voltar pra casa porque sobra tempo pra entender todo o período que você passou fora, pra pensar em tudo que não dava tempo. Ainda dói e ainda não voltei a sentir os laços apertados, ainda me sinto com frágeis conexões. Mas minha base é forte, e o meu santo ainda mais. Faço bagunças, me atrapalho, mas não tenho preguiça para ajudar um igual a se levantar. E é assim que um dia vou acertar mais a tecla e talvez no ano que vem eu esteja mais conectada para voltar a pular o Carnaval e acreditando realmente na alegria dele. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Eu, o Mar.

Quando eu era pequena, eu conseguia escutar a voz do mar. Eu chegava na praia e o cumprimentava e ficávamos horas conversando. Eu entrava na água com a sua benção e dentro dele continuávamos o papo. As vezes ele me mandava sair e eu não queria, mas aí ele me expulsava e eu tomava um caldo. Ou então ele queria que eu entrasse e eu não queria, só de birra, e ele ficava bravo e parava de falar comigo. Mas logo fazíamos as pazes. Quando minha mãe me chamava pra ir embora eu falava: mas o mar quer que eu fique mais um pouco! E eu sempre me despedia dele antes de ir, de viajar de volta pra minha cidade, muitas vezes chorando e prometendo que não ia demorar para voltar. Ele ficava triste, mas sabia que eu logo voltaria. Afinal, amigos de infância nunca se abandonam.
Fui crescendo e cada vez eu chegava na praia com mais amigos. Comecei a ter vergonha de confessar para eles que ouvia o mar de verdade. Então eu fingia que era normal chegar na praia e ficar sentada na areia antes de ir conversar com o mar. Ele ficou bem chateado no começo, mas acho que sabia que isso aconteceria – que eu perderia parte da magia da infância e me afastaria dele. Que eu ia ocultar as nossas histórias até que se tornassem irreais. Mas não tive coragem de abandoná-lo de vez. Eu passei a ficar mais tempo na areia do que dentro dele, com os novos amigos e paqueras, mas sempre que eu conseguia fugir, eu corria pra pelo menos falar oi e dar uma piscadinha, pra mostrar: eu continuo aqui! Envelhecendo, mas sempre aqui.
Hoje, adulta, aprendi a conversar com meu amigo em silêncio, e não somente pra não me acharem doida, porque não sinto mais vergonha. Mas o papo ficou mais sério e não quero que todos saibam. Não consigo escutá-lo mais como antes, uma voz tão clara e forte. Hoje escuto seu silêncio e ele o meu. Com a chegada do ano novo, fiz o que não fazia há tanto tempo: fui até ele, apenas para sentir a nossa ligação. Eu me abri completamente, mostrei meus medos e meus desejos e pedi a sua força nos momentos em que eu me sentir sozinha.Voltar pra essa casa me faz sentir desconectada do mundo e completamente perdida. Mas foi só me banhar e o meu amigo imediatamente me acalmou. Como só os velhos conhecidos de alma fazem.

Talvez eu seja mesma filha do mar, como sou do fogo,  da terra e do ar. Filha da Natureza e do Universo. Talvez seja verdade que sejamos um só, matéria, verde, bicho, gente, espírito. E por isso talvez que eu seja tão inquieta, porque quero ouvir as vozes desse todo que vive em mim, pois nunca consegui silenciá-los. Na verdade, eu nunca quis. Porque eu sempre serei amiga do mar. .E ele nunca deixará de me acalentar.  

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Para 2014

Estava lendo o Evangelho com minha amiga, e após a leitura sempre debatemos e tentamos encaixar exemplos do nosso cotidiano. Mas nesse dia eu estava um pouco distraída, pensando em tanta coisa que aconteceu nos últimos dias, e quando minha amiga perguntou o que eu tinha entendido da leitura, disse, um pouco entediada: ah sim, temos que passar pelos momentos ruins pra ver se assim a gente consegue evoluir espiritualmente. Ok. Ela sorriu e me disse: eu não acho isso! Acredito que podemos aprender tanto, estudando, escutando, orando, e se aplicarmos essa energia boa no nosso dia a dia, nem precisamos viver esses momentos tão complicados. Claro que eles sempre vão existir: mas podemos facilitar muito toda a dificuldade. Dessa maneira, melhoramos espiritualmente e carregamos menos raiva, menos culpa, menos frustração dentro da gente, e seguimos mais leves em frente.
Achei engraçado porque eu costumo ser sempre mais positiva do que ela. Mas se eu paro pra analisar esse ano, não fui assim. Pensei em desistir muitas vezes. Cansei de tanta coisa, no começo eu ainda me preocupava em me manifestar sobre os ridículos acontecimentos que não paravam de surgir, até que parei. Comecei a ficar quieta, inclusive nos ataques, mas me incomodava, queria gritar, e reclamava as pessoas mais próximas, incrédula com o mundo, com a cegueira coletiva, e no final eu estava completamente sem esperanças. Quando minha amiga fez falou com toda a calma comigo, sorrindo, tão linda, eu comecei a rir com ela. Ficamos conversando de como encaramos os últimos episódios estressantes em nossas vidas, envolvendo pessoas queridas ou não, e o que concluímos é que todas as vezes que não reagimos impulsivamente, que conseguimos pensar e não ofender ainda mais o outro, foi quando contornamos de melhor maneira a situação e nos sentimos mais tranquilas.
Esse foi um ano pesado para nós duas. Pesou mais quando nossa reação teve a mesma intensidade da ação, ou quando extrapolamos. Mas nos momentos em que tivemos paciência, tudo se tornou mais simples. Seja numa viagem que tinha tudo pra dar errado; nas brigas com as amigas ou com o namorado; nos problemas familiares; no trabalho, nos ataques pessoais... e o que foi muito importante também foi colocar menos expectativa nas pessoas. Cada um tem o seu momento de enxergar, cada um tem a sua história, e a própria carga. Bater boca em momentos quando o outro está sedento por briga, ou exausto depois de tanto trabalho, torna um mais surdo do que o outro. Já quando esperamos pacientemente o melhor momento para agir, deixando ir embora toda a mágoa, toda a raiva contida, a recompensa costuma ser maior.

Então, em 2014 eu pretendo ser capaz de ter mais paciência para conseguir ter mais paz e transmitir mais otimismo. Ahhh, desejo tanta coisa! Acreditar mais. Ajudar mais.  Abraçar meus queridos. Me apaixonar muitas vezes. Espalhar amor, todos os dias. Ensinar e aprender. Virar poeta, para dar coerência aos sonhos, não é isso? Que a metade do copo esteja sempre cheia. Proteção, saúde e mais paciência. Que assim seja, amores. Namastê. Amém. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Ao meu grande líder

Eu estava ensaiando escrever um texto sobre o dia da consciência negra, mas quando tive tempo, fiquei com preguiça. Depois mentalmente escrevi um texto falando sobre cabelos, meu cabelo crespo, meu black que hoje exibo com o maior orgulho, ainda mais quando leio preconceitos que crianças sofrem por causa do cabelo, quando são obrigadas a cortá-lo porque não se encaixa no padrão. Porém, mais uma vez, deixei passar o momento e não postei por preguiça. Preguiça do mundo, principalmente, que insiste em ignorar problemas, em traçar padrões ideais de beleza.
Ainda, semana passada assisti o filme Invictus novamente – considero o filme fraco, principalmente se comparado ao livro. Quando assisti pela primeira vez, estava com tanta informação sobre o evento narrado na cabeça, que fiquei revoltada com a falta de cuidado que a história teve ao ser transformada em filme, quantos fatos essenciais foram omitidos para ter a linguagem cinematográfica. Contei o que ainda lembrava para uns amigos, e mais uma vez pensei em escrever sobre o homem da história, o gênio, sobre a história que não dá pra sentir em somente duas horas. Novamente pensei em escrever, mas dormi.
Hoje não dá para ter preguiça. Hoje preciso de qualquer forma homenagear um dos últimos líderes do planeta. E faço isso com muita dor, porque a minha vontade é chorar em silêncio. Mas não vou.
Quando criança, me pediram para escrever uma redação sobre meu pai. Eu fui criada sem a presença do meu dele por perto - e já era complexa demais para escrever uma redação falando que amava um homem que eu mal conhecia. O meu pai aparecia em datas comemorativas lá em casa mas eu não sentia vínculo para chamá-lo de meu herói, como todos os colegas da minha classe chamam seus pais. Foi quando minha mãe me deu a ideia de buscar alguém que eu admirasse e escrevesse sobre ele, porque grandes homens conseguem ser pais de todo o mundo. Então eu busquei um negro que ainda estivesse vivo. Busquei um negro porque queria me sentir representada por alguém que amasse sua cor, e que me ensinasse a amá-la também. E foi assim que conheci o Mandela. Acabou que ele me ensinou mais, muito mais. Na época, ele tinha acabado de ser libertado,  e eu não entendia sua prisão, e fiquei tão confusa com tudo, com tanto medo. Mas senti alguma coisa na sua fala calma, no seu olhar. Senti amor. Na redação, coloquei ele como o meu pai herói.
Há meses espero a notícia da morte do Mandela, e confesso que torcia para que deixassem que ele descansasse em paz. Há meses leio notícias de que ele já havia partido, somente sendo mantido por aparelhos por questões judiciais ou por qualquer outra razão. E chorei fortemente na primeira vez que li que ele realmente já tinha partido. Eu me senti sozinha, sem um líder para me orientar. 
E hoje, com a sua morte anunciada,  a sensaçao inicial de abandono foi a mesma, de que foi embora o último grande líder do planeta. Fiquei pensando e perguntando: cadê os líderes do mundo? Cadê aqueles que lutam de forma incessante pelo amor, esse amor maior que não permite que as barreiras do ódio, do medo, do desprezo ao próximo vençam? Aqueles que pregam paz e transmitem tanta calma, tanta força, tanta luz, que falam de forma que até o homem mais arrogante e preconceituoso consegue, mesmo que por um segundo, escutar? E pensando nisso eu me senti abandonada, sem esperanças no mundo, relembrando as mensagens raivosas que li ao longo do ano, dos anos, e senti um temor profundo pelo nosso mundo que parece cada dia mais abandonado. 
Mas ai veio uma frase de Mandela na cabeça: Que o homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que conquista por cima do medo. Eu me lembrei que ele ensina – porque nunca terá tempo passado as suas lições - que a única forma de sairmos de nossas prisões é deixando a raiva e o ódio para trás. Que não devemos ter medo de brilhar porque somos filhos do Amor. E que dessa maneira ajudamos outras pessoas a encontrarem a sua luz também. Eu tento parar pra escutar a sua voz me conformando e lembro que não tem como ser abandonada. Ele hoje faz parte do Universo de uma maneira transcendental – e continua aqui, ao meu lado, ao lado de todos os que sentem muito, mas muito a dor da sua perda física. Ele nunca vai parar de falar, ao lado de outros líderes tão excepcionais, tão humanos, tão vivos.
E ai vem um desejo em mim. Eu desejo nunca esquecer que eu posso ensinar todo o mundo a amar. Nunca perder a esperança de que é possível melhorar tudo, sabendo ser maior do que toda a energia que tenta me puxar para baixo. Eu me recuso a me igualar aos pessimistas, aos que tanto odeiam. Porque se hoje eu não reconheço nenhum líder à altura do Mandela, é certo que nasce nesse instante o Universo prepara um para o futuro e precisamos estar preparados para ouvi-lo. Enquanto isso, que eu nunca esqueça sua forma incrivelmente forte de lutar. Não é esquecer ou ser omisso– é sempre enfrentar todo o mal, mas com amor. Com muito amor.

Agora dói e muito. Mas logo só vou chorar por sentir aquela saudade boa desse homem que nunca conheci mas que foi um grande pai no meu mundo. Obrigada Madiba, por ser eterno.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Por Grandes Professores

Todo ano aparece uma campanha no facebook que todo mundo adere super feliz colocando fotos de crianças em seus perfis e ainda ressalvam que foi a melhor época de suas vidas. Eu não participo, tenho preguiça de mudar foto, verdade.  Mas adorei ver fotos de pessoinhas lindas espalhadas e me deu vontade de pegar todas no colo. Só que não concordo que a infância é a melhor época da vida. Foi especial sim, mas durou o que tinha que durar e adoro a fase adulta.  Os problemas existem em todos os anos da nossa vida. 
Eu tive uma infância feliz. Mas não foi fácil, sem preocupações e fantasiosa. Tive momentos pesadíssimos e que me marcam até hoje, e muitos provocados por crianças. Crianças mal educadas por adultos que permitiam comportamentos errados, e de certa forma incentivavam, pois muitas crianças refletem a imagem dos pais. Elas ainda não entendem as barreiras sociais e as falsas boas maneiras de se comportar, e então acabam expondo o que ouvem nas conversas da casa, ou até mesmo na rua e não são freadas pelos seus adultos. Por isso a escola é tão importante, porque crianças precisam ter contato com outras crianças e com grandes adultos.  E esse ponto me leva ao que eu queria realmente escrever: sobre o dia dos professores.
Vou ser honesta: tive poucos bons professores. E os que me marcaram foram os que me faziam pensar além do que estava em livros com histórias  contidas e das apostilas preparatórias para uma prova que não avalia conhecimento. Boa parte dos professores que tive seguiam o esquema pré-determinado pela escola e ponto. Mas os que fugiam... eles me ajudaram a ver além, eles me ajudaram a entender o amor, o próximo, o esquecido, a natureza, a vida.
Poucos, enfatizo. O que é uma pena. Ontem conversei com uma amiga sobre uma reportagem que ela assistiu sobre uma professora que ensina história com músicas da Maria Bethania. Como amaria assistir a uma aula dessa professora, como ela deve tocar os seus alunos. Exemplos assim ficam para sempre dentro da gente. E incentiva que o grande criador que existe dentro de nós não tenha medo de viver nesse mundo tão confuso. Pessoas que sabem ensinar possuem o poder de transformar toda uma sociedade de forma mais impactante do que imaginamos.
Bons professores conseguem mexer até mesmo em adultos mal encarados. Conseguem quebrar barreiras e proteger seus pupilos. Conseguem ensinar além do que foi ensinado dentro de casa, e viram pais de milhares. É um dos trabalhos mais difíceis do mundo. Por isso tão poucos realmente bons, por isso são tão temidos. Os verdadeiros professores são vistos com maus olhos, são criticados e apedrejados. Mas eles continuam porque sabem o seu valor no Universo. Eles sabem que conseguem transformar o mundo, mesmo com seus salário medíocre e sem o glamour da profissão. 
Eu adoraria uma campanha onde as pessoas colocassem fotos desses professores de alma no seu perfil, dando a força que eles precisam para permanecerem ativos. Quem sabe não incentivaria outros professores a realmente ensinar. Acredito que através da educação podemos mudar o mundo. Sejamos cada vez mais excelentes professores para que seja impossível frear essa transformação.


sábado, 31 de agosto de 2013

Bloqueando.

Estava contando uma história pra uma amiga e ela disse rindo que nunca conseguiu entender como que eu consigo me relacionar com tanto tipo de pessoas diferentes. Ela ainda falou: “- você tem amigos da extrema esquerda e da extrema direita, com relação com o Opus Dei: como que você consegue isso? Se bobear, você tem amigo racista que acha que você é exceção nos negros!” Ficamos rindo sobre o assunto, mas ela está certa: eu realmente tenho tudo quanto é tipo de conhecidos.

Eu gosto de gente. Gosto de observar seu comportamento, de aprender e ensinar, de ampliar meus horizontes.  Todo mundo tem defeitos, todo mundo faz ou fala besteira de vez em quando. Mas ainda é verdade que todo mundo tem uma qualidade, e por isso procuro trazer o que a pessoa tem de melhor. O que muitas vezes nao é possível. Aliás, quantas vezes não me peguei tentando lembrar porque eu ainda falo ou gosto com determinada pessoa, e porque ainda não mantenho qualquer forma de contato com ela. A verdade é que minha paciência está sendo muito testada ultimamente no facebook, mas eu procuro me controlar e pouco me manifestar nos perfis de terceiros. Tento só bloquear ou retirar a pessoa do meu feed na última instância. Às vezes não dá. Nem sendo Buda, Gandhi, Jesus Cristo. Imagina sendo uma simples humana sem dotes sobrenaturais.

Preciso desabafar de vez em quando também. Meus amigos mais próximos sabem que eu vou xingar e reclamar, mas tudo de boca pra fora. Eu sou daquelas que grita e esperneia e esquece no próximo segundo. Poucas vezes fico muito tempo engasgada. Hoje eu estou, mesmo depois de já ter divulgado a minha indignação pra todo mundo que está perto. Essa semana começou com a morte do estudante de Guiné - Bissaú, um episódio de violência gratuita e omissão dos presentes. Depois, mais xenofobismo manifestado por alguns médicos com o apoio de muita gente que conheço.

Sobre o primeiro episódio, só me restou chorar. Eu li e compartilhei a notícia num domingo ensolarado e voltei pra cama. Demorei pra encarar o dia. Depois, as vaias. Ainda não me conformo com a recente atitude baixa de alguns médicos que trataram seus colegas como se fossem inferiores. E me conformo menos ainda com alguns que apoiaram com argumentos esdrúxulos. Uma conhecida chegou a  falar que foi defesa de território e ainda postou um texto na sua página incentivando o desrespeito. Outra, médica – aliás, infelizmente, nenhum dos meus amigos médicos se manifestaram sobre o assunto da forma que eu esperava– escreveu que que já estava na hora de mudarem os assuntos que maus profissionais estão em todas as áreas.  Verdade. Mas quase todo dia vejo pessoas falando mal de advogados. Aliás, aberrações jurídicas e manifestações apaixonadas e erradas sobre o Direito eu leio todos os dias. Ainda assim, não defendo a “classe” nos seus contantes erros, ou qualquer outra instituição. Talvez seja verdade que os médicos são corporativistas e vão se defender sempre. Os juristas não, eles querem é brigar um com o outro mesmo. Mas essa colega médica, no lugar de divulgar que estava envergonhada com o ocorrido, ainda assim amenizou a questão e ficou toda ferida porque leu notícias uma após a outra falando mal dos amiguinhos profissionais. Cansa.

Nunca devemos ocultar ou simplesmente fingir não enxergar qualquer forma de discriminação contra o outro. Muito menos esquecer. Devemos expor para ver se é possível provocar algum sentimento de arrependimento nos autores do ato. É normal cometer uma besteira na empolgação, influenciado pela galera que grita junto, acontece. É ser momentaneamente idiota e imaturo, mas acontece. Só que depois é preciso pensar sobre seus atos e se desculpar sim. Engraçado que as pessoas não gostam de pedir desculpas por orgulho, mas pra ferir o outro não usaram freios antes de proferir palavras e comportamento baixos.

Tenho parentes médicos. Já quis ser médica. Desisti por preguiça e muitas vezes me arrependo. Só que para mim, o ser humano está acima da ideologia da minha família, dos meus amigos, da medicina. O que importa é ajudar o outro, o ser humano como um todo, e não só meu mundinho. Dói ver o descaso, a prioridade das questões pessoais em detrimento das pessoas, e fico tão esgotada porque parece que algumas coisas não tem solução, o egoísmo vai prevalecer, o egocentrismo, o consumismo e dá vontade de gritar e bater na pra ver se adianta, mas não vai. E dá vontade de desistir de acreditar. Mas se desistirmos, o que acontece com o mundo? Ele precisa de força pra sobreviver. Somos sobreviventes, eu e ele. Então melhor terminar essa semana pessimista e começar a outra com os sonhos renovados. Pra isso, pelo menos por hoje,  não vai ter como: algumas pessoas terão que ser bloqueadas. Preguiça de tentar entendê-las.

                                   

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Mais sobre o amor

É difícil escrever sobre amor nesses tempos estranhos. Ainda assim, cada dia mais penso nele. Toda vez que vejo, leio, escuto as atrocidades que estão sendo cometidas, quanto mais enojada fico com o desrespeito do ser humano pelo próximo, com o nosso egoísmo, com a nossa falta de vergonha ao potencializar nossos problemas e não olhar pra quem está tão perto... mais eu penso em amor.
Anos atrás eu praticamente não falava “eu te amo”. Eu achava que era uma frase tão forte, e para que ela ficasse banal, eu tinha que pronunciar bem pouco. Acreditava que quem eu amava sabia, ou pelo meu olhar, ou pelo carinho que eu demonstrava ter. Mas apenas falava de amor em momentos especiais e intensos. Hoje não. Hoje eu falo eu te amo o tempo todo, e ainda assim vi que não banalizei o amor.
Falo todos os dias que eu amo alguém. Posso ter ficado meio brega, mas por que não? Percebi que a palavrinha tem tanta força que ao pronunciá-la, ajudo a espalhar o amor no universo. Não tenho que ficar pensando em ocasiões ou em oportunidades, sentimento não é isso. Nossos amores precisam saber da sua importância no nosso mundo. Claro que é fundamental demonstrar também. Mas como é lindo ouvir o amor sincero... imediatamente provoca um sorriso, um abraço, um aperto bom no coração. O mundo anda precisando de sorrisos...
Depois que parei de ter vergonha de falar eu te amo, depois que parei de racionalizar o sentimento tão puro e perfeito,  percebi que mudei, justamente porque não falo só por costume, mas sim porque desejo. Tenho mais paciência, penso mais antes do ataque, revido menos porque me tornei menos arbitrária. Pode ser a maior coincidência, pode ser amadurecimento. Mas quando mais amamos, não nos tornamos melhores? Se não tenho mais medo de divulgar meu amor, isso também não me torna mais doce e consequentemente tenho menos defesas e amo mais?  Então acordo, penso nas pessoas que amo, penso na vida que almejo e fico mais forte. O amor fortalece por ser altruísta, e nos faz olhar mais pro próximo porque desejamos felicidade para além do nosso mundinho umbilical.

O amor não tem que ficar parado dentro da gente – é um sentimento de comunhão e tem que ser mandado pro mundo. Então, mesmo nessas fases onde a tristeza parece dominar, espalhe amor. É possível sim mudar o mundo desse jeito.  Afinal, quando não se conhece o amor puro, mais individualista ficamos, mais rancorosos e o ódio toma força. E não pensar no próximo só aumenta essa bagunça do mal que estamos vivenciando. Vamos amar pra mudar as coisas. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

E na semana onde se comemora o amor...


Difícil saber qual lado era o o mais chato no dia dos namorados: os dos solteiros ou o dos que estão em um relacionamento.
Li solteiros falando da futilidade dos relacionamentos atuais; criticando a data porque só aumenta o falso amor, o consumo, alimenta a hipocrisia entre os casais e etc... e por outro lado, namorados que perderam tempo debochando dos solteiros, porque é impossível ser feliz sozinho, chamando os outros de frustrados e encalhados, mandando rezar pra Santo Antônio...
Há verdade e mentira nos dois lados. Mas o que me cansa é a valorização de uma data que acabou se tornando maior do que o amor.
Por outro lado vi casais lindos mostrando a felicidade de estar juntos, não apenas no dia 12, mas no resto dos dia tambem. Casais não preocupados com o tamanho do presente – simplesmente com o sorriso do outro, com o abraço, o olhar. Esses casais não precisam ostentar a felicidade, são felizes porque simplesmente são. Assim como os solteiros que também celebraram o dia, alegres, livres, e rodeados do amor puro, independente de estar acompanhado ou não.
É fácil questionar a forma do outro de amar. Já fiz isso várias vezes. Não conseguia entender uma forma de amor que não fosse a  minha. Eu não entendia batalhar tanto tempo pra um relacionamento dar certo. E nunca entendi a falta de individualismo em alguns casais. Mas hoje eu desci da minha bancada ao perceber que cada um desenha a sua felicidade. Cada um sabe a sua forma de amar. A minha não é melhor ou pior, assim como a dos meus amigos, é simplesmente a que funciona para mim. Podemos não entender um aos outros, mas respeitar e torcer para que  todos saibamos ser felizes. Acompanhados ou não. Não existe só uma via.
No final parei de tentar entender as provocações dos dois lados e sorri ao ver que cada vez mais as pessoas entendem que somos todos uma unidade e que devemos contemplar todas faces do amor. Se falamos a mesma língua, pouco importa quem está casado ou solteiro. O que importa é que nos completamos.

Ainda sobre o amor:


Eu estava na aula do curso de direitos fundamentais e acompanhando notícias da manifestação paulistana pelo celular. De repente começei a me sentir uma farsa. Estava incrivelmente orgulhosa do protesto, e compartilhei notícias, defendi os manifestantes... mas eu estava dentro de uma sala de aula discutindo a teoria enquanto a história aconteceu há poucas quadras depois. Todos estávamos. Falávamos de liberdade, judicialização dos direitos humanos, em novos caminhos para traçar...mas estávamos dentro de um prédio, enquanto o abuso acontecia ao nosso lado. Quando bateu a consciência e já era tarde, precisei sair um pouco. E procurei me desculpar silenciosamente com os meus princípios e com aqueles que lutavam por mim. Espero da próxima vez ter a coragem de não mandar apenas a minha compaixão. Mas de também usar os meus pulmões e gritar.  Como pacifista, acredito no poder das palavras. Porém, algumas vezes, é só com muita voz no mesmo tom que conseguimos fazer o outro enxergar o amor além do próprio umbigo. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Sobre a minha irmã de olhinhos puxados.


Gente boa se atrai. Eu devo ser muito boa mesmo. Claro que iríamos nos reencontrar, mesmo se nascêssemos em continentes diferentes, ela no asiático e eu no africano. Nos conhecemos há muitas vidas e muitas vezes somos um só. Ela é uma das minhas metades, meu lado solto, selvagem e louco. Sempre que me falam que eu sou livre, penso nela: eles não sabem de nada: só conhecem meu lado careta.
É difícil escrever sobre ela porque é difícil escrever sobre a gente. Quando estou me sentindo sozinha em meus ideais, penso imediatamente nela: e sei que estamos conectadas. Não precisamos conversar sobre o assunto: simplesmente sei porque ela é meu lado mais inteligente e humano. E amamos muito, apesar de. Amamos tanto o mundo que dói intensamente. Aí nos reencontramos nos vazios de nossas bolhas e a fraqueza toda num instante passa.
Ao seu lado eu me sinto mais bonita. Ela é tão linda que respinga parte da sua beleza na gente. E desfilamos pelas ruas atraindo olhares mesmo distraídas, e as pessoas percebem que mesmo tão diferentes somos tão iguais. Comentam sobre isso, e eu fico muito feliz. Eu devo ser muito boa mesmo.
Acho que foi numa crônica de Rubem Alves que li que a verdadeira amizade é a que tem suas raízes fora do tempo, na eternidade, porque um amigo é alguém com quem estivemos desde sempre. Traduz tudo. Não é fácil descrever alguém tão similar, tão conhecido. Tão gente. Somos irmãs num tempo/espaço indeterminado, o sempre. E assim termino sem saber como terminar e percebo que não disse nada! Mas não preciso né? Nos entendemos no silêncio. Mais uma vez obrigada, Universo, pelos reencontros de alma. E parabéns para mim porque hoje também é meu aniversário. 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Tecla mute.

Cada dia acho mais complicado frequentar redes sociais e descobrir o que meus colegas pensam.  Normalmente estou aberta a diálogos e debates, mas ultimamente não tenho paciência pra nada. Tudo me atinge. Fico extremamente triste com opiniões sem nenhum nexo , de pessoas que sei que são inteligentes e que possuem acesso ao estudo. Opiniões influenciadas por revistas vestidas com seriedade, mas sensacionalistas, ou por programas de televisão, mas todas sem um estudo verdadeiro sobre uma determinada questão. Decidi que estou aberta apenas para aqueles que argumentam. Fora isso, tento excluir. Estou cansada de manifestações de ódio, de sentimentos revanchistas, de análises estigmatizadoras. Sinto-me enojada. Ai saio da internet, e falo que vou demorar dias pra voltar. Porque dói de verdade. Nem todo mundo eu posso bloquear. Entao o melhor é ficar um tempinho afastada porque o assunto sai da moda e aí não fico tão exausta em ler a alegria de muitos pela campanha do pão e do circo.

Cansa tentar entender.Tentar explicar mais ainda. Direitos humanos não é sinônimo de direito de bandido. Mas pareço falar sozinha. Aí paro de falar. Apenas sorrio. Depois me sinto uma farsa por fingir aceitar discursos que tanto me doem. A errada sou eu, por falar e por calar. Eu me afasto e peço a Deus para me perdoar. Cansa aceitar que as pessoas continuam querendo se enclausurar e viver no ambiente definido como seguro e perfeito, e esquecer que existe todo um mundo aí fora, clamando por atenção, por amor, por gente. Gente! Por mais impressionante que isso possa parecer, existem pessoas fora dos bairros perfeitos, com padrões americanos de ideais. Gente que luta, que sofre, que tenta viver e vive muitas vezes melhor porque não tenta ostentar uma felicidade de revista Caras. E devemos olhar para o lado e aprender com eles, porque não aprendemos apenas nos nossos círculos sociais. Viver em harmonia e ser solidário não é ter compaixão apenas pela dor de uma determinada classe social. É entender o todo e quebrar as barreiras para efetivamente alcançar a paz. 

Felizmente sempre acontece o lado bom das redes sociais. Porque sempre aparece alguém que não se cala como eu. E eu fico tão feliz... sinto-me tão menos sozinha. Fico com vontade de abraçar essa pessoa e pular e gritar! Imediatamente volto a acreditar que o mundo tem chance sim. Talvez não para essa geração. Mas para a próxima... a próxima ainda dá pra criar melhor e fora da casinha.

Mas enquanto isso... se não dá pra parar, dá pra desacelerar um pouquinho o mundo pra que eu tire férias? Depois eu prometo que o alcanço lá na frente de novo. Ou talvez eu só precise de uma borrachinha pra apagar boa parte do que eu leio e de uma tecla mute, pra silenciar o blablablá mesmo. Já que me cansa fingir que estou ignorando o tempo todo, melhor efetivamente deixar no mudo e não escutar por um bom tempo.

sábado, 13 de abril de 2013

Camila:


Quando eu te conheci, era Copa do Mundo de 1990. Lembro bem desse dia porque recontamos várias vezes. Eu me lembro de esperar o final de semana ansiosamente porque você ia chegar no meu bairro e logo já estava gritando na casa da sua avó para você ir pra rua.  Brincavamos até bem tarde de pique, bicicleta, queimada, comidinha, e aí você dormia lá em casa e brincávamos ainda mais, de teatro, filmes, dona onça, de cantar. Quando a gente ia dormir ríamos tanto contando histórias de medo e de amor que passavámos a madrugada inteira assim. Éramos tão grudadas que brincávamos dormindo. Lembro da minha mãe contando de brincadeiras de adoleta sonâmbulas e sempre recheadas com risadas.
Mas tivemos que crescer. Você foi na minha frente. De corpo e de coração. Eu estava perto quando você deu seu primeiro beijo e depois conversamos a noite inteira. Eu estava perto quando você se apaixonou. Só que eu tinha muito medo de abandonar aquela vida segura de histórias e sonhos, e você apesar de aparentar ser mais medrosa, não teve. Fomos estudar na mesma escola depois, uma escola que você adorava e que me fez muito mal e muito bem, não sei ao certo. Você era mais popular e lá andávamos com turmas separadas, você ficava no pátio e eu sempre preferia continuar na sala de aula, sempre receosa porque quando eu circulava sozinha eu sempre ouvia maldades. Mas quando saíamos da escola a conexão voltava e ríamos do motorista, do filho do motorista, até que fomos morar no mesmo prédio e voltávamos juntas pra casa, esperando algum paquera passar para descobrir onde ele morava.
Você também estava por perto quando eu me apaixonei. Mas eu tinha muito medo. Então eu preferia sofrer ouvindo músicas melosas e imaginar que o atual amor da minha vida ia também se apaixonar por mim. Já você não tinha medo da rejeição. Assim de certa forma eu fui me enclausurando no decorrer da minha adolescência e você foi encarar o mundo. Foi quando realmente começamos a nos afastar.
Até que de repente precisávamos de familiaridade, e nesses momentos não tinhamos dúvida sobre quem procurar. Sempre era fácil expressar uma com a outra, com palavras, com cartas ou apenas com olhares. E você foi a minha melhor amiga por muitos anos, até que na mesma época, tivemos que mudar de cidade.
Eu sabia que perderíamos contato porque você sempre foi desligada. E isso aconteceu, mas o mundo reúne pessoas parecidas. E quando nos reencontramos, parecia que nem tinha tanto tempo. E estávamos muito parecidas. Você fez a faculdade que eu devia ter feito, e luta pelo o que acredita. Eu continuo muitas vezes procurando o silêncio e fiz uma faculdade mais cômoda. Mas nossos ideais são semelhantes e por isso o mundo nos colocou juntas novamente, porque ele precisa fazer isso para encontrar o equilíbrio. Mas mesmo com a distância física, continuamos irmãs. Passamos por histórias parecidas. Temos crises de inseguranças e vontade de mudar o mundo. É como se nada tivesse mudado. Sempre irmãs.
Hoje pra falar que lembrei do seu aniversário sem facebook, achei que uma carta seria a melhor forma de te dar parabéns, como fazíamos na nossa infância, no lugar de um torpedo ou de uma mensagem pequena que não saberia expressar o quanto você é especial na minha vida. E preciso te falar que você continua linda. Ainda mais linda, se possível. E só de pensar em você, eu fico sempre muito feliz. Como ficava quando você chegava no meu bairro doida para brincar.         

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Vibe abril


Março acabou. Com todo o peso de março. Mais uma vez, tenso, quase insuportável. Senti seu peso logo no início. Permaneci com uma sensação nebulosa até o final. Quando achava que não aguentaria, sonhava com abril. Pensava: suporte: vai acabar em poucos dias! E cada dia uma nova notícia triste, um novo choro. Mas acaba! O mês acaba!

E chegou abril. Com uma lua gigantesca que surgiu no nada, afastando as nuvens carregadas. Uma lua gigantesca em São Paulo? Claro que é sinal de renovação! E só se foram 4 dias e parece que tudo está mais verde. Vale a pena acreditar na vida. 

Talvez seja verdade que todos nós que acreditamos num mundo melhor tenhamos crises constantes de melancolia. Talvez às vezes fique pesado demais tanta dor. Só entende quem tem essa sina de acreditar no Amor. Alguns não entendem minhas palavras e meu pesar por não ser da minha conta, por não me afetar diretamente. Mas afeta. Nem ligo, não preciso argumentar. Porque há muitos como eu espalhados por ai. E eu os amo mesmo sem conhecê-los. E quando os conheço amo ainda mais.

Vibe abril para todos. Tão bom ser parte de um todo que realmente vale a pena. Tão bom conseguir sobreviver. Sempre!  

terça-feira, 26 de março de 2013

Cada um com seu propósito...


Há mais ou menos uma semana eu conversava com a Rose e estávamos tentando entender porque as pessoas continuam casadas mesmo infelizes e ela me falou o que a psicóloga dela disse: que cada pessoa tem um propósito. Algumas têm o propósito de ter filhos. Entao nao importa os meios se conseguir o fim. Outras, de ter um casamento, nao importa como. Achei interessante a teoria da psicóloga e ficamos horas debatendo sobre isso, citando exemplos. Foi ai que interrompi a Rose para falar que então eu estou ferrada, porque meu propósito sempre foi ter o amor pleno, a minha alma gêmea! E morremos de rir.
Quando contei o papo pra uma outra amiga a conversa tomou outros rumos . Ela é muito diferente de mim – talvez seja por isso que ela me enriquece – e ainda assim é uma das pessoas que mais confio nessa vida. Ela não me entende direito, e leva a sério muitas das minhas divagações. Mas ela escuta e pensa sempre no que eu falo. Eu quase nunca concordo com as opiniões dela. Talvez isso seja recíproco. Ainda assim, eu sempre converso sobre quase tudo com ela, porque ela acredita nas minhas verdades reais e nas minhas verdades - mentiras. 
Ela nunca entendeu quando eu falo que quero meu amor maior. Ela fica satisfeita com outros amores também. Mas fomos criadas muito diferentes e isso também influenciou nossa visão de mundo. Ela é uma garotinha, frágil e carente de pessoas, quase meu oposto -  e no final quem acredita no romance sou eu, na paixão arrebatadora, no sentimento completo.
A questão é que eu não acredito em príncipes. Na verdade, odiaria um, encheria meu saco em dois tempos. Mas acredito que posso me sentir completa com alguém. Eu me sinto assim várias vezes, quando rodeada dos amigos mais queridos ou quando estou em casa, ou até sozinha. É isso que busco em um relacionamento, que ele me complete. Já basta a minha solidão – eu adoro ela, mas não quero dividi-la. Não aceito solidão a dois. Mas me completar é saber se agregar, e não querer me idealizar, ou me mudar. Se eu esquecer de mim por um outro, ficarei incompleta.
Minha amiga acha que sou muito radical em algumas situações. Verdade. Eu faço o que funciona para mim. Posso até errar o caminho e bater muitas vezes na trave. Mas são minhas escolhas. Não gosto muito de conselhos impostos, gosto de chegar a uma conclusão debatendo. E berro. Uma outra amiga minha disse que dificuldade de aceitar conselhos é uma coisa que devo resolver na terapia, entender o porquê e tal... preguiça. Tudo hoje envolve terapia e terapeutas, envolve seguir terceiros, é o “must have” da atualidade. Só que eu sou muito feliz, mais do que a maioria, desculpa. E não aceito com conselhos que me padronizam! O convencional não funciona comigo. Eu sou feliz mesmo com os meus vazios que me completam. Então procuro alguém que se encaixe nesse espaço restante e que não queira me roubar de mim. Esse é o meu propósito. Boa sorte pra mim. E ponto.    

sexta-feira, 8 de março de 2013

Andar com fé eu vou...


Essa semana pensei que conseguiria tirar férias do mundo. Queria uns dias de descanso em uma praia um pouco deserta por estar fora de temporada, mas encontrei um lugar tentando ser moderninho, enquanto seria muito mais bonito rústico. Ainda, viajei com amigos que estavam o tempo todo conectados. Então fiquei sabendo das notícias em tempo integral, o que as vezes não acontece nem quando estou em São Paulo e fico dias sem assistir o jornal.
E foi muita coisa em uma semana, com muita morte pesada. Morte de político, morte de cantor. Ainda,  a morte de uma Comissão de Direitos Humanos em que eu acreditava e que acabou de ser enterrada viva por cristãos, que deveriam entender o amor. Mas não, porque eles pregam o ódio.
Assim, continuo cansada apesar da minha tentativa de descansar do carnaval que eu não tive. Voltei bem bronzeada. Senti o vento e Deus. Mas logo que eu sentava na praia alguém queria conversar sobre alguma das tragédias e a verdade é que eu voltei ainda mais cansada porque não consegui me desconectar e viver a natureza do lugar intensamente.
Será um mês difícil, com muitos vazios. Pensei que só  teria que enfrentá-lo semana que vem, com um ano da ida do meu anjo pra terceira margem. Mas com tantos pequenos vazios se juntando, entendi que o que me resta é reforçar em mim o Amor maior. É a melhor maneira é ter fé que tudo já melhorou.
Acredito que a nossa fé é sempre testada em momentos difíceis. Quando falo em fé não é necessariamente em Deus. Mas sim de forma ampla: fé no mundo, em nós mesmos, na vida.  E nesses momentos em que o mais fácil é falar que chega do mundo mundo, que o homem não tem mais jeito, é quando mais temos que acreditar nele. A fé move sim montanhas – sem ela, ficamos imóveis, esperando a vida passar e reclamando o tempo todo. Reclamar demais só tira energia. A fé só renova e nos deixa ainda mais satisfeitos com as vitórias, porque não existe conquistas pequenas. Tudo é um passo para a plenitude, sorrisos, abraços, carinhos, olhares. Com muita fé, nunca deixaremos de acreditar nos homens.
Então desejo muita fé no coração dos que estão querendo permanecer no luto nesse mês de março. Que essa fé nos dê força para enfrentar e entender esse ano da Serpente. Com muita fé, o pesadelo é apenas um sonho ruim. E ai quando o novo chegar, mesmo devagarzinho, será recebido com muita, muita festa.  

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Ano novo


Agora que o ano realmente começou ( eu quis me enganar achando que tinha começado dia 01/01, só porque eu já sabia que não teria carnaval... mas acabei cedendo), resolvi voltar a atualizar o blog. O engraçado é que muitas vezes eu pensei em postar alguma coisa, e formulei tudinho na minha cabeça, mas nunca coloquei no papel. Bem, se é para estar de férias, que seja por completo. Mas agora não dá pra enrolar mais o ano.
Quando o ano de 2013 começou eu estava no Peru. Fiz uma viagem com mais três amigas e conhecemos o roteiro básico entre a Bolívia e o Peru, e eu estava me sentindo energizada. Nas minhas viagens, eu sempre me sinto mais intensa. Nesses lugares, com tanta história, com tanto passado que parece tão presente, com uma natureza tão única, com tantas cores... eu subi a montanha de Wayna Picchu e quando cheguei no alto eu gritei – não sei se foi só na minha mente, mas sei que berrei muito. Estava sozinha, então durou um tempo. E ai depois fiquei tão cansada que queria ficar pelo menos um dia sem falar. Mas com mais 3 meninas por perto, quase impossível. Acho que pedi silêncio, mas fui mal interpretada. Estava sem voz e sem força para ouvir o que me parecia o mesmo. Eu queria apenas entender o meu momento.
E fiquei impressionada com a beleza. Tantas cores reunidas em países considerados tão pobres. Tantos vermelhos e roxos e amarelos e azuis e eu queria me enrolar em tudo, ver tudo. Fiquei mais impactada do que esperava. Agradeci muito, o tempo todo. Porque é muita vida continuar se surpreendendo mesmo achando que já viu muito.
Voltei tão esgotada pra casa que realmente fiquei um dia sem falar. Dormi umas 20 horas. No dia seguinte, dormi mais. Uns dias depois que voltei a formular boas frases, mas só voltei a me sentir disposta mais de uma semana depois. Voltar pra São Paulo me deprimiu um pouco. Queria mais azul e silêncio. Não deu mais porque teoricamente o ano tinha começado.
Minha irmã chinesa estava me explicando o que esperar desse novo ano, que no horóscopo chinês é o ano da serpente. Depois da história que ela me contou, procurei um pouco e todos os sites onde li confirmam que esse é um ano de muita reflexão. Ando me sentindo assim o tempo tudo. Pensando demais, meditando, procurando entender comportamentos. Muito mais que o normal. Ando sentindo falta de um lado espiritual mais forte, ando sentindo muita falta da energia da natureza. E meus pensamentos estão tão intensos que mal consigo verbalizá-los. É como se minha dislexia tivesse aumentado mas sei que não. É esse momento, é como sinto que estarei esse ano inteiro.
E ao mesmo tempo... ando cheia de vida. Em menos de 2 meses, tive várias explosões dentro de mim de alegria e paz. Também de cansaço e de tristeza. Estou com leve taquicardia constante, como se estivesse com a adrenalina elevada de forma permanente. Tive pesadelos intensos, senti medo, e depois novamente renovada, com energia elevada. Incrivelmente feliz, mesmo sem motivo concreto. E já chorei de saudade várias vezes.
Então que esse ano seja assim: com muita vida. Com muitas renovações. Que eu continue em movimento, mesmo parada, ou em silêncio. Nessa bagunça, que consiga encontrar algo parecido com o equilíbrio. Ou com o desequilíbrio ideal.  
   


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Doce (não) Dezembro.


Dezembro chegou forte, como todo dezembro. É o fim de tudo, e como não tem mais como prolongar, que acabe logo. Nao é fácil, como todo término e recomeço. Começa tentando me enganar, leve e quente e azul, mas a semana me mostra que nao é setembro, e nem maio. Claro que não dura. Vai ser Dezembro, com toda sua personalidade. Lindo. E pesado.
Ao mesmo tempo é tao bonito. Tantas luzes e enfeites. Vozes cantando, corais espalhados pela cidade e paro para ouvir. A música sempre me encanta, é como a minha alma escuta. Com musicalidade. E apesar de alguns tenores desafinados por causa do barulho da Paulista, eles sorriem e voltam para o tom e perco meu tempo admirando aqueles que sabem cantar, sonhando um dia ter esse talento e sair alegrando os outros por ai com minha voz.
Mas acaba. E as pessoas se multiplicam na rua e correm. Tudo está tão cheio, o tráfego piora e eu estou tao cansada. Como que surge tanta gente assim? Onde caberá todo mundo? Quero ficar no outro canto. Lembro que o Natal está chegando e eu amo tanto o Natal, só que esse será o primeiro que não cantaremos parabéns. Ai dói. Mas não aceito que isso ofusque o brilho do Natal. Cansa mais ainda brigar com meus sentimentos. Muitas vezes é essa mistura de beleza e dor que inensifica os resultados. Nesse Dezembro essa mistura virá com toda força. Já está aqui, dentro de mim, cada hora um lado fala mais alto e grito com os dois porque só quero ouvir cantos.
Chego tonta em casa e volto para a música. Se em Dezembro as pessoas agissem como em um musical, seria mais fácil pra mim. Mas não. Leio uma linda carta que uma grande amiga escreve para uma amiga dela e me emociono tambem com a resposta. Queria escrever para alguém tambem, mas nao tenho ninguém. Não hoje, estou sozinha. Entao escrevo para o nada, para ver se alguém pega o que jogo no ar. Ou na internet. Qualquer um. Mas não qualquer um. Não tem sentido, mas não é isso que define a melancolia? É, estou melancólica. Deve ser pelo fim do mundo. Deve ser por querer que acabe logo. Por que demora?
Decido terminar com coisas carnais que não me tocam a alma. Sozinha mesmo. Não sei viver sem intensidade, seja de alegria ou de pesar. Quando não sou intensa, é porque me anulo. Hoje não. Hoje é o dia do drama, então estou aqui. Quem sabe um dia alguém me escuta. Ou todo mundo. Ou ninguém mesmo e continuo vivendo assim, fora de sintonia. Mas canso de brigar, ao mesmo tempo que enjoa pensar em ficar do lado que todo mundo está, lá é tudo apertado e tão comum... Mais uma vez me sinto derrotada. Acabe logo. Que venha o depois.
Hoje estou assim. Culpo Dezembro, com seus altos e baixos enérgicos. Melhor dormir. Amanhã vou  escutar alguém cantar. 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A vida aos 30.


Tenho conversado tanto sobre a vida com as pessoas nos últimos meses, e também sobre as surpresas desse ano na vida de alguns amigos, e com isso não paro de me analisar e tentar entender o propósito de tudo que passei.
Eu guardei em mim uma caixinha com muitos palavras negativas que ouvia quando era criança. Escondi bem no fundo, mas muitas vezes, quando eu me deparo com um problema, essa caixinha se abre e as palavras saem e martelam na minha cabeça com muita força. Feia. Suja. Burra. Macaca. É quando eu recuo e me encolho. Sem querer eu dou força a essas palavras e me sinto muito mal, somatizo, fico até doente. Mesmo depois ouvindo coisas positivas, elogios, muitas vezes eu demoro a acreditar. Acho que a pessoa está falando para tentar me agradar. Dependendo de quem fala, acho que é falsidade mesmo.
Hoje eu tenho consciência do quanto essa caixinha me afetou quando abria. Destruí-la é impossível, então tenho que saber conviver com ela e mudar a sua influência em mim. Então resolvi construir uma outra, essa sim, com coisas boas, e sei que essa vai ofuscar aquela ruim. O engraçado é o tempo que levei tomar essa atitude. Querendo me mostrar sempre forte, acabe me tornando muito fraca. Mas eu não estava preparada pra lutar por mim. Mas esse ano difícil abriu portas pra isso. 
Eu tinha a mania de escrever, e guardei uns  diários antigos. Andei relendo alguns nesses últimos dias. Lembrei que desde pequena eu não me conformava com tanta injustiça no mundo, tanta ingratidão, tanta dor. Então eu chorava, mas não queria que ninguém visse esse momento. Pro mundo eu tinha que estar ali, forte, mesmo com tanta gente querendo me dar porrada. Estranha a consciencia que eu já tinha em mim, porque eu não chorava só porque tinha problemas. Chorava pelas misérias da vida dos outros, por doenças de estranhos, por gente que morria antes do tempo, por gente que perdia casa, por existir guerra, eu soluçava e pedia pra Deus pra entender o porquê de tanto sofrimento num mundo tão bonito. Eu não entendia porque as pessoas não enxergavam o belo. Daí nasceu minha vontade de mudar o mundo.
Eu morava em um bairro que tinha um pedacinho da Mata Atlântica. Então eu pegava minha bicicleta e me enfiava naquele pedacinho de floresta, as vezes sozinha ou com algum amigo do bairro, e sempre escondida porque minha mãe e a minha vó tinham medo que alguma cobra me picasse. E no mato eu esquecia o peso do mundo real e brincava com os bichos,  inventava jogos, eu me limpava de toda aquela energia que tentava me pegar. E voltava pra casa depois. Eu sempre amei a natureza porque sempre foi nela, no seu silêncio, que consegui me recompor.
Que bom que eu era diferente. Hoje eu sei. Agradeço o aprendizado. 
Por outro lado eu sempre fui rodeada de amor. Uma força tão intensa que acabou me equilibrando pra ser uma pessoa positiva, e continuar acreditando na força dele. Minha família, mesmo pequena, sempre foi muito viva. A gente sempre canta e dança, briga, brinca e dá muita gargalhada. Por causa dessa pequena base, nunca fui  triste (a tristeza em mim sempre foi temporária) , porque ela sempre me levantava. Por causa dela, sempre acreditei no amor, mesmo quando tudo me mostrava que ele estava esquecido. E de forma intensa. Além dela, sempre tive bons amigos. Amigos de alma, de outras vidas, só pode ser, porque me completam. Eles tambem sempre me ensinaram sobre o amor. 
Uma grande amiga uma vez me falou que eu vivo num mundo de sonhos. E é verdade. Eu entrei nele muito pequenininha pra poder enfeitar minha vida quando eu estava triste e ele sempre me deixou feliz. Mas não sei se meu mundo de sonho é tão irreal assim. Pequenas coisas ultimamente tem me deixado muito satisfeita. Eu tenho andado feliz, mesmo quando eu choro de saudades. E estou vendo tantas cores em uma cidade cinza, como eu tinha parado de enxergar na cidade realmente colorida. Não sei se me tornei cega ou se estou vendo demais mesmo. Mas eu agradeço cada dia mais pela minha vida, pela vida ao redor, pelas descobertas e dificuldades que passei pra estar onde estou hoje. E eu não tenho nada que as pessoas acham que precisam ter aos 30 anos. Mas hoje eu sinto, realmente sinto, como se tivesse tudo.


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Em Sampa


Caminhando 5 minutos na Avenida Paulista até o metrô. Vejo:
- uma cadelinha deitada na coberta de um mendigo com mais 10 filhotinhos um em cima do outro;
 - dois garotos segurando placas, onde estava escrito: abraços de graça, abrançando todos os curiosos ao redor;
 - Michael Jackson dançando Moonwalk;
 - Um violinista tocando Bach e duas senhoras sorrindo encantadas com a música apesar de todo o barulho externo;
 - lindos quadros feitos com recortes de revistas.
 - cartazes de que o mundo vai acabar em dezembro.
 - uma fila gigantesca de pessoas loucas para ver a exposição de Caravaggio.
 - pessoas tão diferentes que parece que estou em um universo paralelo.

Às vezes é impossível não amar São Paulo. 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Vida que segue


É um pouco estranho sentir a vida mudando. Mas por mais que fique com um pouco de medo, não deixa de ser encantador.
Encontrei uma amiga recentemente em outra cidade e ela contou tudo o que ela planejou para que não tivesse problemas naquele final de semana. Pesquisou coisas que eu nem tinha cogitado, e ela estava orgulhosa de ter dado tudo conforme programado. Achei engraçado. Primeiro porque não sou nada organizada. Depois, porque para mim tambem deu tudo certo. Tive um belo final de semana, sem esperar nada. Só cheguei sorrindo e com a certeza de que correria tudo bem. E foi melhor.
Não dá para controlar todas as coisas, isso eu já sabia, mas ultimamente que tenho colocado em prática ficar em silêncio e esperar, quando há um tempo atrás eu falaria e muito. Estou aprendendo a deixar a vida tomar conta dos outros também. Talvez alguém próximo continue errando achando que está melhorando, continue procurando a mesma pessoa errada para amar,  só que cada um tem o seu tempo de aprender. E talvez não aprenda nessa forma de vida que conhecemos. Mas um hora acorda e segue. Como não adianta tentar controlar, porque não sabemos a hora certa para esse alguém, é melhor ficar calada do que machucar ainda mais uma pessoa que se sente tão sozinha. E torcer pra que a vida dê logo o seu jeito de mostrar.
Eu demorei mais de 3 anos para aceitar que eu estava de luto antecipado e que tinha deixado minha vida de lado. Viajar era a única maneira de me encontrar, mas na volta eu me perdia, dentro de um apartamento, e triste, numa das cidades mais lindas do mundo. Eu sabia que não estava bem, mas não estava pronta para aceitar e me renovar. Mas não estou lamentando o tempo que teoricamente perdi. Eu aprendi. Foi o tempo que eu precisava. Hoje me sinto muito bem, como eu não me sentia há muito tempo.
E agora há pouco, a confirmação da vida novamente aparecendo na minha frente: uma amiga irmã está grávida e estou achando tão curioso tudo acontecer tão de repente, porque eu não poderia imaginar isso agora. É a vida encontrando seu jeito, sem hora marcada, sem data planejada, sem certo ou errado. Ela, que mal conhecia o amor, esse ano está rodeada dele de forma plena. Eu, que perdi uma das pessoas que mais me ensinou a amar esse ano, vou ganhar um sobrinho de coração. Como não agradecer pela vida, pelas surpresas, pela força que ela nos dá? É o amor, é o seguir, é deixar acontecer. Obrigada.