terça-feira, 15 de outubro de 2013

Por Grandes Professores

Todo ano aparece uma campanha no facebook que todo mundo adere super feliz colocando fotos de crianças em seus perfis e ainda ressalvam que foi a melhor época de suas vidas. Eu não participo, tenho preguiça de mudar foto, verdade.  Mas adorei ver fotos de pessoinhas lindas espalhadas e me deu vontade de pegar todas no colo. Só que não concordo que a infância é a melhor época da vida. Foi especial sim, mas durou o que tinha que durar e adoro a fase adulta.  Os problemas existem em todos os anos da nossa vida. 
Eu tive uma infância feliz. Mas não foi fácil, sem preocupações e fantasiosa. Tive momentos pesadíssimos e que me marcam até hoje, e muitos provocados por crianças. Crianças mal educadas por adultos que permitiam comportamentos errados, e de certa forma incentivavam, pois muitas crianças refletem a imagem dos pais. Elas ainda não entendem as barreiras sociais e as falsas boas maneiras de se comportar, e então acabam expondo o que ouvem nas conversas da casa, ou até mesmo na rua e não são freadas pelos seus adultos. Por isso a escola é tão importante, porque crianças precisam ter contato com outras crianças e com grandes adultos.  E esse ponto me leva ao que eu queria realmente escrever: sobre o dia dos professores.
Vou ser honesta: tive poucos bons professores. E os que me marcaram foram os que me faziam pensar além do que estava em livros com histórias  contidas e das apostilas preparatórias para uma prova que não avalia conhecimento. Boa parte dos professores que tive seguiam o esquema pré-determinado pela escola e ponto. Mas os que fugiam... eles me ajudaram a ver além, eles me ajudaram a entender o amor, o próximo, o esquecido, a natureza, a vida.
Poucos, enfatizo. O que é uma pena. Ontem conversei com uma amiga sobre uma reportagem que ela assistiu sobre uma professora que ensina história com músicas da Maria Bethania. Como amaria assistir a uma aula dessa professora, como ela deve tocar os seus alunos. Exemplos assim ficam para sempre dentro da gente. E incentiva que o grande criador que existe dentro de nós não tenha medo de viver nesse mundo tão confuso. Pessoas que sabem ensinar possuem o poder de transformar toda uma sociedade de forma mais impactante do que imaginamos.
Bons professores conseguem mexer até mesmo em adultos mal encarados. Conseguem quebrar barreiras e proteger seus pupilos. Conseguem ensinar além do que foi ensinado dentro de casa, e viram pais de milhares. É um dos trabalhos mais difíceis do mundo. Por isso tão poucos realmente bons, por isso são tão temidos. Os verdadeiros professores são vistos com maus olhos, são criticados e apedrejados. Mas eles continuam porque sabem o seu valor no Universo. Eles sabem que conseguem transformar o mundo, mesmo com seus salário medíocre e sem o glamour da profissão. 
Eu adoraria uma campanha onde as pessoas colocassem fotos desses professores de alma no seu perfil, dando a força que eles precisam para permanecerem ativos. Quem sabe não incentivaria outros professores a realmente ensinar. Acredito que através da educação podemos mudar o mundo. Sejamos cada vez mais excelentes professores para que seja impossível frear essa transformação.


sábado, 31 de agosto de 2013

Bloqueando.

Estava contando uma história pra uma amiga e ela disse rindo que nunca conseguiu entender como que eu consigo me relacionar com tanto tipo de pessoas diferentes. Ela ainda falou: “- você tem amigos da extrema esquerda e da extrema direita, com relação com o Opus Dei: como que você consegue isso? Se bobear, você tem amigo racista que acha que você é exceção nos negros!” Ficamos rindo sobre o assunto, mas ela está certa: eu realmente tenho tudo quanto é tipo de conhecidos.

Eu gosto de gente. Gosto de observar seu comportamento, de aprender e ensinar, de ampliar meus horizontes.  Todo mundo tem defeitos, todo mundo faz ou fala besteira de vez em quando. Mas ainda é verdade que todo mundo tem uma qualidade, e por isso procuro trazer o que a pessoa tem de melhor. O que muitas vezes nao é possível. Aliás, quantas vezes não me peguei tentando lembrar porque eu ainda falo ou gosto com determinada pessoa, e porque ainda não mantenho qualquer forma de contato com ela. A verdade é que minha paciência está sendo muito testada ultimamente no facebook, mas eu procuro me controlar e pouco me manifestar nos perfis de terceiros. Tento só bloquear ou retirar a pessoa do meu feed na última instância. Às vezes não dá. Nem sendo Buda, Gandhi, Jesus Cristo. Imagina sendo uma simples humana sem dotes sobrenaturais.

Preciso desabafar de vez em quando também. Meus amigos mais próximos sabem que eu vou xingar e reclamar, mas tudo de boca pra fora. Eu sou daquelas que grita e esperneia e esquece no próximo segundo. Poucas vezes fico muito tempo engasgada. Hoje eu estou, mesmo depois de já ter divulgado a minha indignação pra todo mundo que está perto. Essa semana começou com a morte do estudante de Guiné - Bissaú, um episódio de violência gratuita e omissão dos presentes. Depois, mais xenofobismo manifestado por alguns médicos com o apoio de muita gente que conheço.

Sobre o primeiro episódio, só me restou chorar. Eu li e compartilhei a notícia num domingo ensolarado e voltei pra cama. Demorei pra encarar o dia. Depois, as vaias. Ainda não me conformo com a recente atitude baixa de alguns médicos que trataram seus colegas como se fossem inferiores. E me conformo menos ainda com alguns que apoiaram com argumentos esdrúxulos. Uma conhecida chegou a  falar que foi defesa de território e ainda postou um texto na sua página incentivando o desrespeito. Outra, médica – aliás, infelizmente, nenhum dos meus amigos médicos se manifestaram sobre o assunto da forma que eu esperava– escreveu que que já estava na hora de mudarem os assuntos que maus profissionais estão em todas as áreas.  Verdade. Mas quase todo dia vejo pessoas falando mal de advogados. Aliás, aberrações jurídicas e manifestações apaixonadas e erradas sobre o Direito eu leio todos os dias. Ainda assim, não defendo a “classe” nos seus contantes erros, ou qualquer outra instituição. Talvez seja verdade que os médicos são corporativistas e vão se defender sempre. Os juristas não, eles querem é brigar um com o outro mesmo. Mas essa colega médica, no lugar de divulgar que estava envergonhada com o ocorrido, ainda assim amenizou a questão e ficou toda ferida porque leu notícias uma após a outra falando mal dos amiguinhos profissionais. Cansa.

Nunca devemos ocultar ou simplesmente fingir não enxergar qualquer forma de discriminação contra o outro. Muito menos esquecer. Devemos expor para ver se é possível provocar algum sentimento de arrependimento nos autores do ato. É normal cometer uma besteira na empolgação, influenciado pela galera que grita junto, acontece. É ser momentaneamente idiota e imaturo, mas acontece. Só que depois é preciso pensar sobre seus atos e se desculpar sim. Engraçado que as pessoas não gostam de pedir desculpas por orgulho, mas pra ferir o outro não usaram freios antes de proferir palavras e comportamento baixos.

Tenho parentes médicos. Já quis ser médica. Desisti por preguiça e muitas vezes me arrependo. Só que para mim, o ser humano está acima da ideologia da minha família, dos meus amigos, da medicina. O que importa é ajudar o outro, o ser humano como um todo, e não só meu mundinho. Dói ver o descaso, a prioridade das questões pessoais em detrimento das pessoas, e fico tão esgotada porque parece que algumas coisas não tem solução, o egoísmo vai prevalecer, o egocentrismo, o consumismo e dá vontade de gritar e bater na pra ver se adianta, mas não vai. E dá vontade de desistir de acreditar. Mas se desistirmos, o que acontece com o mundo? Ele precisa de força pra sobreviver. Somos sobreviventes, eu e ele. Então melhor terminar essa semana pessimista e começar a outra com os sonhos renovados. Pra isso, pelo menos por hoje,  não vai ter como: algumas pessoas terão que ser bloqueadas. Preguiça de tentar entendê-las.

                                   

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Mais sobre o amor

É difícil escrever sobre amor nesses tempos estranhos. Ainda assim, cada dia mais penso nele. Toda vez que vejo, leio, escuto as atrocidades que estão sendo cometidas, quanto mais enojada fico com o desrespeito do ser humano pelo próximo, com o nosso egoísmo, com a nossa falta de vergonha ao potencializar nossos problemas e não olhar pra quem está tão perto... mais eu penso em amor.
Anos atrás eu praticamente não falava “eu te amo”. Eu achava que era uma frase tão forte, e para que ela ficasse banal, eu tinha que pronunciar bem pouco. Acreditava que quem eu amava sabia, ou pelo meu olhar, ou pelo carinho que eu demonstrava ter. Mas apenas falava de amor em momentos especiais e intensos. Hoje não. Hoje eu falo eu te amo o tempo todo, e ainda assim vi que não banalizei o amor.
Falo todos os dias que eu amo alguém. Posso ter ficado meio brega, mas por que não? Percebi que a palavrinha tem tanta força que ao pronunciá-la, ajudo a espalhar o amor no universo. Não tenho que ficar pensando em ocasiões ou em oportunidades, sentimento não é isso. Nossos amores precisam saber da sua importância no nosso mundo. Claro que é fundamental demonstrar também. Mas como é lindo ouvir o amor sincero... imediatamente provoca um sorriso, um abraço, um aperto bom no coração. O mundo anda precisando de sorrisos...
Depois que parei de ter vergonha de falar eu te amo, depois que parei de racionalizar o sentimento tão puro e perfeito,  percebi que mudei, justamente porque não falo só por costume, mas sim porque desejo. Tenho mais paciência, penso mais antes do ataque, revido menos porque me tornei menos arbitrária. Pode ser a maior coincidência, pode ser amadurecimento. Mas quando mais amamos, não nos tornamos melhores? Se não tenho mais medo de divulgar meu amor, isso também não me torna mais doce e consequentemente tenho menos defesas e amo mais?  Então acordo, penso nas pessoas que amo, penso na vida que almejo e fico mais forte. O amor fortalece por ser altruísta, e nos faz olhar mais pro próximo porque desejamos felicidade para além do nosso mundinho umbilical.

O amor não tem que ficar parado dentro da gente – é um sentimento de comunhão e tem que ser mandado pro mundo. Então, mesmo nessas fases onde a tristeza parece dominar, espalhe amor. É possível sim mudar o mundo desse jeito.  Afinal, quando não se conhece o amor puro, mais individualista ficamos, mais rancorosos e o ódio toma força. E não pensar no próximo só aumenta essa bagunça do mal que estamos vivenciando. Vamos amar pra mudar as coisas. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

E na semana onde se comemora o amor...


Difícil saber qual lado era o o mais chato no dia dos namorados: os dos solteiros ou o dos que estão em um relacionamento.
Li solteiros falando da futilidade dos relacionamentos atuais; criticando a data porque só aumenta o falso amor, o consumo, alimenta a hipocrisia entre os casais e etc... e por outro lado, namorados que perderam tempo debochando dos solteiros, porque é impossível ser feliz sozinho, chamando os outros de frustrados e encalhados, mandando rezar pra Santo Antônio...
Há verdade e mentira nos dois lados. Mas o que me cansa é a valorização de uma data que acabou se tornando maior do que o amor.
Por outro lado vi casais lindos mostrando a felicidade de estar juntos, não apenas no dia 12, mas no resto dos dia tambem. Casais não preocupados com o tamanho do presente – simplesmente com o sorriso do outro, com o abraço, o olhar. Esses casais não precisam ostentar a felicidade, são felizes porque simplesmente são. Assim como os solteiros que também celebraram o dia, alegres, livres, e rodeados do amor puro, independente de estar acompanhado ou não.
É fácil questionar a forma do outro de amar. Já fiz isso várias vezes. Não conseguia entender uma forma de amor que não fosse a  minha. Eu não entendia batalhar tanto tempo pra um relacionamento dar certo. E nunca entendi a falta de individualismo em alguns casais. Mas hoje eu desci da minha bancada ao perceber que cada um desenha a sua felicidade. Cada um sabe a sua forma de amar. A minha não é melhor ou pior, assim como a dos meus amigos, é simplesmente a que funciona para mim. Podemos não entender um aos outros, mas respeitar e torcer para que  todos saibamos ser felizes. Acompanhados ou não. Não existe só uma via.
No final parei de tentar entender as provocações dos dois lados e sorri ao ver que cada vez mais as pessoas entendem que somos todos uma unidade e que devemos contemplar todas faces do amor. Se falamos a mesma língua, pouco importa quem está casado ou solteiro. O que importa é que nos completamos.

Ainda sobre o amor:


Eu estava na aula do curso de direitos fundamentais e acompanhando notícias da manifestação paulistana pelo celular. De repente começei a me sentir uma farsa. Estava incrivelmente orgulhosa do protesto, e compartilhei notícias, defendi os manifestantes... mas eu estava dentro de uma sala de aula discutindo a teoria enquanto a história aconteceu há poucas quadras depois. Todos estávamos. Falávamos de liberdade, judicialização dos direitos humanos, em novos caminhos para traçar...mas estávamos dentro de um prédio, enquanto o abuso acontecia ao nosso lado. Quando bateu a consciência e já era tarde, precisei sair um pouco. E procurei me desculpar silenciosamente com os meus princípios e com aqueles que lutavam por mim. Espero da próxima vez ter a coragem de não mandar apenas a minha compaixão. Mas de também usar os meus pulmões e gritar.  Como pacifista, acredito no poder das palavras. Porém, algumas vezes, é só com muita voz no mesmo tom que conseguimos fazer o outro enxergar o amor além do próprio umbigo. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Sobre a minha irmã de olhinhos puxados.


Gente boa se atrai. Eu devo ser muito boa mesmo. Claro que iríamos nos reencontrar, mesmo se nascêssemos em continentes diferentes, ela no asiático e eu no africano. Nos conhecemos há muitas vidas e muitas vezes somos um só. Ela é uma das minhas metades, meu lado solto, selvagem e louco. Sempre que me falam que eu sou livre, penso nela: eles não sabem de nada: só conhecem meu lado careta.
É difícil escrever sobre ela porque é difícil escrever sobre a gente. Quando estou me sentindo sozinha em meus ideais, penso imediatamente nela: e sei que estamos conectadas. Não precisamos conversar sobre o assunto: simplesmente sei porque ela é meu lado mais inteligente e humano. E amamos muito, apesar de. Amamos tanto o mundo que dói intensamente. Aí nos reencontramos nos vazios de nossas bolhas e a fraqueza toda num instante passa.
Ao seu lado eu me sinto mais bonita. Ela é tão linda que respinga parte da sua beleza na gente. E desfilamos pelas ruas atraindo olhares mesmo distraídas, e as pessoas percebem que mesmo tão diferentes somos tão iguais. Comentam sobre isso, e eu fico muito feliz. Eu devo ser muito boa mesmo.
Acho que foi numa crônica de Rubem Alves que li que a verdadeira amizade é a que tem suas raízes fora do tempo, na eternidade, porque um amigo é alguém com quem estivemos desde sempre. Traduz tudo. Não é fácil descrever alguém tão similar, tão conhecido. Tão gente. Somos irmãs num tempo/espaço indeterminado, o sempre. E assim termino sem saber como terminar e percebo que não disse nada! Mas não preciso né? Nos entendemos no silêncio. Mais uma vez obrigada, Universo, pelos reencontros de alma. E parabéns para mim porque hoje também é meu aniversário. 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Tecla mute.

Cada dia acho mais complicado frequentar redes sociais e descobrir o que meus colegas pensam.  Normalmente estou aberta a diálogos e debates, mas ultimamente não tenho paciência pra nada. Tudo me atinge. Fico extremamente triste com opiniões sem nenhum nexo , de pessoas que sei que são inteligentes e que possuem acesso ao estudo. Opiniões influenciadas por revistas vestidas com seriedade, mas sensacionalistas, ou por programas de televisão, mas todas sem um estudo verdadeiro sobre uma determinada questão. Decidi que estou aberta apenas para aqueles que argumentam. Fora isso, tento excluir. Estou cansada de manifestações de ódio, de sentimentos revanchistas, de análises estigmatizadoras. Sinto-me enojada. Ai saio da internet, e falo que vou demorar dias pra voltar. Porque dói de verdade. Nem todo mundo eu posso bloquear. Entao o melhor é ficar um tempinho afastada porque o assunto sai da moda e aí não fico tão exausta em ler a alegria de muitos pela campanha do pão e do circo.

Cansa tentar entender.Tentar explicar mais ainda. Direitos humanos não é sinônimo de direito de bandido. Mas pareço falar sozinha. Aí paro de falar. Apenas sorrio. Depois me sinto uma farsa por fingir aceitar discursos que tanto me doem. A errada sou eu, por falar e por calar. Eu me afasto e peço a Deus para me perdoar. Cansa aceitar que as pessoas continuam querendo se enclausurar e viver no ambiente definido como seguro e perfeito, e esquecer que existe todo um mundo aí fora, clamando por atenção, por amor, por gente. Gente! Por mais impressionante que isso possa parecer, existem pessoas fora dos bairros perfeitos, com padrões americanos de ideais. Gente que luta, que sofre, que tenta viver e vive muitas vezes melhor porque não tenta ostentar uma felicidade de revista Caras. E devemos olhar para o lado e aprender com eles, porque não aprendemos apenas nos nossos círculos sociais. Viver em harmonia e ser solidário não é ter compaixão apenas pela dor de uma determinada classe social. É entender o todo e quebrar as barreiras para efetivamente alcançar a paz. 

Felizmente sempre acontece o lado bom das redes sociais. Porque sempre aparece alguém que não se cala como eu. E eu fico tão feliz... sinto-me tão menos sozinha. Fico com vontade de abraçar essa pessoa e pular e gritar! Imediatamente volto a acreditar que o mundo tem chance sim. Talvez não para essa geração. Mas para a próxima... a próxima ainda dá pra criar melhor e fora da casinha.

Mas enquanto isso... se não dá pra parar, dá pra desacelerar um pouquinho o mundo pra que eu tire férias? Depois eu prometo que o alcanço lá na frente de novo. Ou talvez eu só precise de uma borrachinha pra apagar boa parte do que eu leio e de uma tecla mute, pra silenciar o blablablá mesmo. Já que me cansa fingir que estou ignorando o tempo todo, melhor efetivamente deixar no mudo e não escutar por um bom tempo.

sábado, 13 de abril de 2013

Camila:


Quando eu te conheci, era Copa do Mundo de 1990. Lembro bem desse dia porque recontamos várias vezes. Eu me lembro de esperar o final de semana ansiosamente porque você ia chegar no meu bairro e logo já estava gritando na casa da sua avó para você ir pra rua.  Brincavamos até bem tarde de pique, bicicleta, queimada, comidinha, e aí você dormia lá em casa e brincávamos ainda mais, de teatro, filmes, dona onça, de cantar. Quando a gente ia dormir ríamos tanto contando histórias de medo e de amor que passavámos a madrugada inteira assim. Éramos tão grudadas que brincávamos dormindo. Lembro da minha mãe contando de brincadeiras de adoleta sonâmbulas e sempre recheadas com risadas.
Mas tivemos que crescer. Você foi na minha frente. De corpo e de coração. Eu estava perto quando você deu seu primeiro beijo e depois conversamos a noite inteira. Eu estava perto quando você se apaixonou. Só que eu tinha muito medo de abandonar aquela vida segura de histórias e sonhos, e você apesar de aparentar ser mais medrosa, não teve. Fomos estudar na mesma escola depois, uma escola que você adorava e que me fez muito mal e muito bem, não sei ao certo. Você era mais popular e lá andávamos com turmas separadas, você ficava no pátio e eu sempre preferia continuar na sala de aula, sempre receosa porque quando eu circulava sozinha eu sempre ouvia maldades. Mas quando saíamos da escola a conexão voltava e ríamos do motorista, do filho do motorista, até que fomos morar no mesmo prédio e voltávamos juntas pra casa, esperando algum paquera passar para descobrir onde ele morava.
Você também estava por perto quando eu me apaixonei. Mas eu tinha muito medo. Então eu preferia sofrer ouvindo músicas melosas e imaginar que o atual amor da minha vida ia também se apaixonar por mim. Já você não tinha medo da rejeição. Assim de certa forma eu fui me enclausurando no decorrer da minha adolescência e você foi encarar o mundo. Foi quando realmente começamos a nos afastar.
Até que de repente precisávamos de familiaridade, e nesses momentos não tinhamos dúvida sobre quem procurar. Sempre era fácil expressar uma com a outra, com palavras, com cartas ou apenas com olhares. E você foi a minha melhor amiga por muitos anos, até que na mesma época, tivemos que mudar de cidade.
Eu sabia que perderíamos contato porque você sempre foi desligada. E isso aconteceu, mas o mundo reúne pessoas parecidas. E quando nos reencontramos, parecia que nem tinha tanto tempo. E estávamos muito parecidas. Você fez a faculdade que eu devia ter feito, e luta pelo o que acredita. Eu continuo muitas vezes procurando o silêncio e fiz uma faculdade mais cômoda. Mas nossos ideais são semelhantes e por isso o mundo nos colocou juntas novamente, porque ele precisa fazer isso para encontrar o equilíbrio. Mas mesmo com a distância física, continuamos irmãs. Passamos por histórias parecidas. Temos crises de inseguranças e vontade de mudar o mundo. É como se nada tivesse mudado. Sempre irmãs.
Hoje pra falar que lembrei do seu aniversário sem facebook, achei que uma carta seria a melhor forma de te dar parabéns, como fazíamos na nossa infância, no lugar de um torpedo ou de uma mensagem pequena que não saberia expressar o quanto você é especial na minha vida. E preciso te falar que você continua linda. Ainda mais linda, se possível. E só de pensar em você, eu fico sempre muito feliz. Como ficava quando você chegava no meu bairro doida para brincar.